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Algumas reflexões sobre as causas das manifestações (parte 1)

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“Uma cidade onde a paz tem como base apenas a inércia de seus sujeitos, os quais se deixam conduzir como um rebanho e somente se exercem à servidão, não é mais uma coletividade, mas uma solidão” Spinoza (Tratado Político, 5.4) 

Nova política 

Sabe-se que os partidos políticos brasileiros não seguem ideologias ou princípios, senão vagamente. Por mais que seja ainda possível observar orientações mais econômico-neo-liberalistas e outras mais populistas, por exemplo, os brasileiros aprenderam com a realidade que o que mais importa para os partidos e para os políticos é a eleição, e se possível a reeleição. Ser um político em nossa sociedade tornou-se, a céu aberto, de maneira generalizada e sem pudor, o mesmo que conseguir um cargo onde o salário é bom, pouco se vai às plenárias, e que pode ser fonte de enriquecimento ilícito. Muda-se de partido seguindo interesses pessoais e de poder. Os partidos fazem coalizões e subornam ou são subornados segundo interesses de se manter no poder. Não são apenas os governos que não têm projeto de país, de estado ou de cidade, aprendemos ao longo dos anos a constatar que todos os partidos almejam o poder para locupletar-se e manter-se o maior tempo possível usufruindo dos privilégios pessoais de estar no poder.

Essa triste realidade faz com que fique claro para a população, ou ao menos para estudantes que são mais esclarecidos sobre esse tipo de manipulações (embora a falta de pudor torne difícil haver quem não saiba delas), que os partidos e os políticos não representam mais ninguém, exceto dos que participam da partilha do roubo, nem defendem mais causa alguma senão a de seus interesses mesquinhos outrora inconfessáveis.

Redes sociais

A grande novidade das manifestações de junho de 2013, que tomam de assalto a maioria dos estados do Brasil, é o fato de que não são organizadas por nenhum partido político, nem por nenhuma organização específica. Seu início se deu pelo Passe-livre e contra o aumento das passagens de ônibus em R$ 0,20 (vinte centavos). Mas isso foi apenas o estopim para a expressão de centenas de milhares de estudantes país afora, mesmo em capitais e outras cidades onde o ônibus não aumentou. Esse movimento se fez e se faz não somente distante dos partidos políticos, como sobretudo contra os partidos políticos.

E renovam assim a verdadeira democracia, que é participativa, e não representativa. Sobretudo quando a representatividade não é respeitada pelos partidos. Afinal, esta é uma das principais mensagens, ideologias não nos representam mais. O que nos mobiliza são causas, não ideologias.

Os jovens estão acompanhando há tempos a liberdade de políticos em locupletar-se, colocando-se acima da lei, do bem e do mal civil, contrários a qualquer princípio ético. E não só os políticos, como os empresários, que elegeram o lucro como valor maior, valor em si, e não medem esforços para forçar a corrupção dos governos, cooptando-os para seus fins lucrativos.

Surpresa!

Os políticos, e por trás deles, como sempre, os grandes empresários, estão estupefatos com as manifestações. Como assim, se a classe D tem agora crédito para comprar TV de plasma? Se há bolsa-presídio para as famílias que viviam do tráfico poderem se sustentar enquanto seus varões estão na cadeia sem poder roubar? Se as empresas aumentam seus lucros exorbitantemente (calculando que estão perdendo dinheiro quando no máximo diminuem sua margem de lucro relativamente ao lucro até então obtido – o que por si só é um cálculo desonesto, pois institui o lucro que não retorna para o serviço prestado como algo que se justifica por si só)?

Tudo parecia correr às maravilhas: povo satisfeito com pouco, empresas satisfeitas com muito, corrupção legitimada, insatisfeitos vencidos pelo cansaço.

Impossível não lembrar da célebre frase da rainha Maria Antonieta, à época da Revolução Francesa, que – também estupefata – disse “Se o povo não tem pão, que coma brioche!”

Claro, para políticos e grandes empresários tudo vai bem, por que então o povo quer atrapalhar esse idílio, se tem recebido crédito para tevês de plasma?

O mundo tenta entender: se as classes C e D podem consumir produtos tecnológicos, por que reclamam?

Porque junto ao crédito, vem o aumento do custo de vida.

Na época de meus pais, todos eram “duros”, mas a maioria parecia ter escola, comida farta na mesa, e dinheiro para ir ao circo e ao cinema de vez em quando.

Quem é o líder?

Foi muito engraçado ver os governantes de Brasília dando entrevista ao vivo, no meio dos jovens que subiram sobre o teto da Assembléia, perplexos porque não havia com quem negociar, pois não havia líderes do movimento.

Impossível não ouvir nas entrelinhas: ‘Quem iremos prender? Quem iremos corromper? Quem iremos ameaçar, cooptar, enquadrar, atacar, acusar de formação de quadrilha, de terrorista? Como diremos que os jovens são ingênuos e seguem o primeiro líder que aparece, se não há líder??? Não há nenhum líder sindical para enriquecer, dar cargo público, incluir na partilha do lucro, torná-lo um de nós!!! E agora???’

Pânico. A Revista Veja se precipitou: acusou de terroristas os jovens de classe média, rebeldes sem causa, bandidos escondidos sob o nome de estudantes de sociologia. A presidente Dilma também se precipitou, nomeando no dia 14 de junho as críticas a seu governo de ‘terrorismo informativo’, para depois dizer que se orgulhava das manifestações, talvez não por se orgulhar, mas por medo de perder popularidade e votos.

 

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