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Algumas reflexões sobre as causas das manifestações (parte 4)

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O novo Maracanã e o circo: o dionisíaco e a multidão  

Pão e circo, do latim panes et circenses, pão e diversão: política dos governos romanos de antes de Cristo e do início da era Cristã para manter o povo satisfeito e perdurarem no poder. Fica de algum modo subentendido que sob o pão e o circo há um grau maior ou menor de alienação.

Ora, mas não necessariamente. Nietzsche, apesar de seu aristocratismo, nos mostrou o quanto a arte é política – e talvez a mais perigosa arma para governantes que colocam a manutenção do poder como meio e não como fim para governar, e os privilégios como parte do ‘pagamento’ de sua profissão. Porém, a arte quando esta expressa o que ele chamou de princípio dionisíaco artístico, que, em poucas palavras, significa: quando ela é visceral, pois assim pode expressar o que constitui cada ser humano, sua fonte de energia, de prazer, de vigor, de vitalidade, que não se curva – embora as possa aceitar – às exigências sociais. No início e no final de sua obra, Nietzsche propôs que entendamos o dionisíaco artístico como aquele que se expressa pelas formas (“apolíneas”), e não de maneira desordenada, como no caso do dionisismo bruto, ou do titanismo destrutivo. No titanismo não há arte, e uma arte unicamente apolínea seria somente esteta, sem a força que emerge das fontes da vida. A arte dionisíaca, ao contrário, necessariamente se expressa de forma artística, apolínea se entendemos Apolo como o deus grego das artes e da beleza, porém, esta o que se expressa na arte dionisíaca através das formas apolíneas, é a força pulsional das fontes vitais, viscerais da existência.

Essa arte visceral é o que mais renova e mais transforma a rigidez social em algo criativo, expressando potência de vida, entusiasmo (em-theo: deus dentro). E por isso é o que há de mais revolucionário, progressista, e ‘perigoso’ do ponto de vista da pura conservação das formas, do conservadorismo de um determinado status quo. A multidão pode ser pacífica, mas não será docilizada como um rebanho (lembremos que os carneiros quando atacados se oferecem ao martírio sem resistir, e que quando um carneiro cai do despenhadeiro os que o seguem caem também, não parando antes, mesmo havendo tempo, tão imbuídos que estão em seguir uns aos outros – funcionam como ‘massa’), se cada indivíduo da ‘multidão’ (usando aqui o termo empregado por Spinoza) se sentir singular, potente, vigoroso, vitalizado.

O novo Maracanã mostra bem a diferença entre o dionisíaco artístico e o apolinismo, como figuras estilizadas para descrever dois tipos de prazer estético. No Maracanã que freqüentei de 1980 a 2010, as arquibancadas debruçavam-se sobre o gramado, de modo que quando num clássico ou numa final a torcida as lotava, era como se a torcida se debruçasse de fato sobre os jogadores e os empurrasse para jogar com raça e tentar vencer. Os chamados ‘bandeirões’, incluindo aqueles que cobriam toda a arquibancada, os instrumentos de música, particularmente de percussão, uniam samba e futebol, dando o clima ao mesmo tempo alegre e de pressão sobre o jogo, de modo que a torcida de fato, por suas manifestações espontâneas, jogava como um décimo segundo jogador. O Maracanã era descrito e cantado como uma ‘panela de pressão’, ‘em ebulição’. Os coros criados espontaneamente eram entoados com os torcedores pulando, assim como algumas músicas.

No novo Maracanã, asseptizado, os caros preços dos ingressos, os caros preços das bebidas (e é proibido entrar com líquidos, afinal, com se sabe, o Brasil tem tradição em guerra química…rs), a proibição de bandeiras grandes, de instrumentos musicais; a proibição por escrito (!) – constante nos termos de aceitação no ato da compra dos ingressos –de se ficar em pé durante o jogo, as cadeiras que sobem caso infrinjamos essa regra (fazendo com que ao voltar a sentar, demos com o traseiro na quina da cadeira dobrada, se não cairmos no chão), e proibição até de se xingar o juiz (!), de fato afugentou todo o espírito dionisíaco do estádio. O espetáculo vale a pena, os jogos até agora também. Mas é um prazer apolíneo, de ópera dos séculos vinte e vinte e um (pois nos séculos anteriores, assistir a uma ópera não era nada sofisticado) – ao invés de assistir pela televisão, vê-se o jogo ao vivo. E, felizmente, canta-se ainda, e leva-se cartazes de apoio às manifestações, mesmo sendo estes proibidos pela patroa FIFA. O cúmulo da triste e risível tentativa de controle e captura total da alegria popular, retirando-lhe a ‘perigosa’ espontaneidade, foram a existência de um animador dando os comandos para o público pelo alto-falante: ‘agora a ola da direita para a esquerda, pessoal!’ – só faltava dizer: ‘agora vamos aplaudir a jogada!’; e a letra dos cantos das torcidas aparecer no telão para o povo cantá-los naquele momento, além do rock tocado antes do jogo e no intervalo, na tentativa clara de tornar o espetáculo um show pop, desrespeitando completamente a autenticidade do público e a relação brasileira do futebol com o samba. Fui ao novo Maracanã duas vezes e gostei de ter ido, mas meu corpo não vibrou. Meus amigos tricolores me dizem que contam com a horda flamenguista para devolver a vida ao Maracanã após a Copa.

Apesar da assepsia imposta pelas normas da FIFA, a ida aos estádios evidenciou que quando se quer os governos encontram verba, constroem obras de qualidade, e conseguem organizar os lugares para a vida coletiva. A mentira é vincular verba pública, obras de qualidade e organização, a assepsia. Que a FIFA deseje assepsia, certamente é porque sabe que torcedores dóceis e controlados dão mais lucro a seus cofres e não dão trabalho. A FIFA quer matar a participação dionisíaca artística espontânea da torcida, assim como a tragédia grega morreu; quer expulsar o povo e a cultura do futebol dos estádios para torná-los arenas de espetáculos que se vê, mas dos quais não se participa verdadeiramente, não se é co-autor. Esse circo não vale.

 

Maquiavel e Spinoza

O adjetivo ‘maquiavélico’ significa, em diversas línguas, um governante ardiloso, desonesto, que utiliza de técnicas de governo para manter-se no poder, persuadindo seus governados de que ele é ao mesmo tempo bom e perigoso, por quem, portanto, se deve ter um misto de gratidão e medo. Exatamente como a Deus, em boa parte das religiões, ou nas religiões cristãs. Essa imagem se deve ao livro escrito por Maquiavel intitulado ‘O príncipe’, em que Maquiavel descreve as técnicas de manipulação do povo utilizadas pelos governantes tiranos, inspirado em César Bórgia, cujo governo Maquiavel conhecera de perto, tendo sido funcionário de sua Corte.

Isso não quer dizer que Maquiavel concordava com tais procedimentos. Spinoza, por exemplo, considerava que o livro ‘O príncipe’ foi escrito por Maquiavel para denunciar ao povo o perigo de se confiar o governo da cidade a um único homem, sem instâncias participativas e regulatórias, pois sem estas a tendência será a de que tal governante se torne um tirano e manipule a multidão pelo medo, apresentando seus feitos em prol da população como dádivas e não apenas como uma realização competente daquilo para o que ele foi aceito como governante.

É realmente incrível a semelhança das acusações feitas por Maquiavel, e as atitudes de nossos políticos. Talvez com a diferença de que no Brasil chegou-se a uma falta de pudor, a uma certeza tão grande da impunidade, que a corrupção, a ganância de enriquecimento e privilégios pessoais dos governantes não é sequer escondida, é dita e mostrada a céu aberto, da forma mais escancarada.

O que por um lado é bom: fica tão ultrajante, que fica mais difícil a população fingir que nada está acontecendo. O que, com o tempo, favorece que uma manifestação como esta ecloda.

 

Insurreição brasileira? Primavera brasileira? Oportunismos e capturas

Na insurreição iraniana do final dos anos 1970, o povo daquele país conseguiu depor um Chá ditador. Infelizmente para eles, no lugar entrou um outro ditador, este Aiatolá, em alguns aspectos pior que o primeiro. Na Primavera árabe, o povo também derrubou ditadores; e ninguém sabe ainda direito o que veio depois.

No nosso caso, não há ditadura; não há virar as costas no momento do hino; o alvo não é este ou aquele governo, este ou aquele partido político; mas todos os partidos políticos, e qualquer governo que aceitar a corrupção, o desvio e mau uso das verbas públicas.

O que se seguirá? O tempo dirá. Os vícios dos governantes, o oportunismo e a ganância dos políticos, certamente não serão erradicados. Se algum partido político conseguirá tirar partido dessas manifestações, ou algum político, ou algum regime; espero que não; não acredito que consiga. Que o mundo ou o país vai mudar? Radicalmente, decerto não; alguma coisa, certamente sim, se considerarmos que a história é feita aos poucos, e não por mudanças absolutas.

 

A liberdade é um estado mental e afetivo

Nenhum movimento cívico, como estas manifestações, fará com que diretamente cada indivíduo se torne mais livre. A liberdade é muito mais a capacidade de afetar-se bem em meio aos mais variados ambientes, sejam estes favoráveis ou não a isso. No entanto, quando a indignação e o ultraje levam a um desejo muito forte de modificações, isto é, levam à ação, o coletivo torna-se não mais massa, mas sim multidão de indivíduos movidos por um desejo comum. Talvez esses momentos possam ser uma ocasião apropriada para uma liberdade maior não somente cívica, mas também para uma compreensão mais clara do que tem maior importância na vida, de modo que torná-la mais confortável seja apenas um dos meios para tornar mais favoráveis as condições ambientais, de modo a que cada um tenha mais potência para cultivar e descobrir sua liberdade interna – que é um estado mental e afetivo oriundo de uma compreensão maior da existência em geral e da própria existência, tendo como fio condutor afetar-se bem, lidar bem com as vicissitudes, agir mais que padecer.

A mudança maior está em nós, na mudança de nosso sentimento face à vida, de nosso modo de nos afetar – o que corresponde ao que Foucault chamou de ‘espiritualidade política’ e ao que Spinoza chamou de ‘beatitude’, em um sentido imanente e laico.

 

Não arrefecer

Meus votos são para que as manifestações não arrefeçam. Será uma pena se os grupos de bandidos que estão saqueando, junto com o despreparo da polícia para uma ação diferenciada, inibirem esse movimento espontâneo democrático de exigência de honestidade em política e por conseguinte mais investimentos na cidade, em transporte, educação e saúde. Não aumentar os preços de passagens e de pedágios, é algo pontual e que tende a durar pouco. Realizar plebiscitos, aumentar a pena para a corrupção dolosa considerando-a crime hediondo, rejeitar a PEC 37 da corrupção, rejeitar o trabalho escravo (esse é um ponto particularmente chocante: a escravidão é crime, mas sempre houve no Congresso um combate, liderado pela ‘bancada ruralista’ e seguida por muitos de rabo preso, a favor da escravidão no campo! Ora, isso não é uma confissão do crime?! Este é mais um exemplo do que a população está vendo ultrajada!), já indica um início de diálogo com a multidão. Mas é preciso continuar a agir, e não parar por aí.

Li em artigo de Toni Negri e amigos, que o plebiscito não seria o ideal, e sim como está acontecendo agora, de a pressão das ruas provocarem novas leis ou o impedimento de leis ultrajantes – como disse um comediante, é incrível que sem má-fé e ganância os políticos sabem direitinho o que devem fazer, em referência a em uma semana as passagens e pedágios não terem aumentado, a PEC 37 ter caído, a corrupção dolosa ter virado crime hediondo, a escravidão no campo ser combatida desta vez com os votos até da bancada ruralista (que, no entanto, diz que é preciso ‘redefinir o que é escravidão!”… De fato, se continuarmos ininterruptamente indo às ruas, a multidão certamente continuará a obter vitórias importantes contra a politicagem e a favor não dos interesses mesquinhos que os políticos representam, mas da população, que eles deveriam representar. Quanto tempo se terá fôlego para se ir às ruas? Espero que pelo menos até a Copa do Mundo daqui a um ano. E que até lá as reformas já tenham sido significativas o bastante para que os políticos não possam retroceder dali por diante.

Quanto ao plebiscito para a Reforma Política, me parece que tudo dependerá das questões que serão levadas para votação popular. Se as perguntas em si forem determinadas pelas ruas e pelas petições online, acredito que serão pertinentes. Se ficarem apenas a cargo do Congresso comprometido como já está, o plebiscito se resumirá a uma forma populista de aparentemente ceder à voz da multidão, mas na verdade ser apenas uma maneira de recolocar o poder nas mãos dos políticos e de seus interesses mesquinhos particulares e corporativos.

Se o plebiscito tiver sido uma ideia da presidente de aproveitar as manifestações para implementar o que sempre quis e as forças corruptas do Congresso não deixavam, que bom. Se for uma tentativa de calar as ruas subtraindo novamente o poder da multidão para entregar-lhe a tenebrosas transações, será uma pena, mas estaremos atentos. As questões levadas à votação indicarão se trata-se de um caso ou de outro.

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