cadastre-se: Posts | comentários

Algumas reflexões sobre as causas das manifestações (parte 3)

0 comentários

Estopim: os gastos com as Copas   

Mas por que agora? Por que o estopim foram os tais vinte centavos? No meu ver, o estopim foram os gastos com a Copa – com a Copa do Mundo e portanto com a das Confederações. Lembrar da recente interdição do Engenhão por conta de erros de execução e de projeto e uso de materiais inadequados, após superfaturamento, após somente cinco anos de sua construção.

Foi – e é – chocante demais ver todos os gastos públicos com estádios suntuosos – bilhões de reais surgidos sabe-se lá de onde, que, parece, serão recuperados em cerca de dez anos no mínimo, e cujo lucro não irá para o governo, mas para os grupos particulares que os arrendarão. Assim como é chocante os preços dos ingressos (menor preço no amistoso contra a Inglaterra: cem reais; menor preço na Copa das Confederações: sessenta reais); o dos líquidos (é proibido entrar com líquidos de casa, pois algum fanático europeu ou norte-americano pode querer entrar com armas químicas?): por exemplo, quatro reais uma garrafinha d’água no amistoso, seis reais na Copa das Confederações; e o dos lanches: dezoito reais um prato pequeno de comida regional, sete reais um saco de batata-frita, dez um de pipoca ou um sorvete.

Ver de forma tão acintosa o quanto encontra-se verba quando se quer, o que torna evidente que não se quer melhorar de fato a cidade, que esta não é a prioridade, que melhorias são apenas buscadas o mínimo suficiente para buscar a reeleição. Que a falta de verba para o que não dá lucro direto é um argumento falso, que o que falta é vontade política e honestidade de governos pressionados pelo capital privado e sua ganância. Foi a gota d’água: desmascarou-se como nunca a hipócrita farsa da falta de verba. ‘Copa, abrimos mão, mais verba para saúde e educação’, cantavam os jovens; ‘Não é contra a seleção, mas contra a corrupção’, exibiam cartazes nas arquibancadas; ‘Um professor vale mais que mil Neymars’, exibia um outro sem ressentimento, certamente de um fã de Neymar. Nada de ruim nos salários dos jogadores, muito menos no crédito para comprar tevês de plasma. Mas sim: o futebol já tem dinheiro bastante por si só para sugar verbas públicas; e acesso ao consumo de bens tecnológicos é bem vinda e simbolicamente tem valor social, mas não pode vir sozinha, nem é o principal. Claro, quanto mais as cidades permanecerem precárias, com serviços precários, mais parecerá uma compensação poder usufruir dos bens materiais da moda. Quanto menos, menos importante serão, e ocuparão seu devido lugar, o de complementos – bem vindos, mas complementos. Se não são complementares, oferecê-los soa mais como uma nova versão do populismo. Seria interessante realizar-se uma pesquisa junto às classes C e D perguntando se eles abririam mão do crédito para comprar tevês, ou tevês melhores, caso tivessem transportes públicos com menos espera, com menos lotação, habitação e aluguel menos caro, SUS com mais recursos, professores mais valorizados, escolas com mais verba e melhor estrutura, um custo de vida mais barato…

 

Formação de quadrilha?!

São Paulo e Rio de Janeiro prenderam alguns estudantes acusando-os de formação de quadrilha. Formação de quadrilha? Pensei que formação de quadrilha havia sido um dos crimes pelos quais José Dirceu havia sido condenado… e não preso. Nem mesmo Marcos Valério está preso. E não satisfeitos, a PEC 37 quer impedir o Ministério Público de poder investigar os corruptos.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos é contra os direitos humanos, mas obteve o cargo em uma negociata de partilha de cargos entre partidos políticos.

Que quadrilhas esses jovens da Veja estão formando? Quadrilhas virtuais, pelas redes sociais? O governo norte-americano já as está vigiando, mesmo isso não sendo permitido pela lei. Mas quem achou que a lei vale para todos?

No Brasil, já vimos isso. Golpe militar, prisões com soltura, e após alguns anos, AI-5, escutas, DOI-COD, perseguições, prisões sem soltura, tortura. Contra os terroristas que estavam destruindo os bens materiais públicos. Não esqueçamos que de 64 a 68, tudo começou com prisões de jovens rebeldes, ainda sem torturas. Foi o holocausto brasileiro, ou um dos. Assim como a Europa não deve esquecer o holocausto, nós não devemos esquecer onde desembocou a repressão aos jovens libertários brasileiros.

Naquela época havia formação de grupos ideológicos. Hoje, será preciso qualificar de quadrilha os usuários das redes sociais…! Uma “quadrilha” realmente imensa! Supor que alguns a formaram, no entanto, é querer tapar o sol com a peneira e criminalizar a revolta contra crimes legalizados pelas brechas de uma justiça desatualizada e criada para beneficiar uma elite da sociedade.

Balas de borracha no olho de um jornalista, tiros a queima-roupa em pernas e braços de manifestantes – em defesa dos bens materiais!  Realmente, para reparar os bens materiais públicos danificados, o dinheiro desviado pela corrupção e pelo superfaturamento fará falta…

 

Violência policial

Não tenho dúvida que a violência policial – uma polícia despreparada e repressora em todos os estados, de governos de todos os partidos – acirrou os ânimos e provocou maior adesão às manifestações. Balas de borracha à queima-roupa, balas de verdade, tiros covardes em manifestantes com os braços erguidos. ‘Verás que um filho teu não foge à luta’, traziam os jovens em cartazes e camisas. Entoavam o hino, nas manifestações e nos estádios da Copa, para além do padrão-Fifa de cortar hinos ao meio para fins lucrativos de aproveitamento do tempo.

Cabe observar que a violência policial estranhamente tem se voltado contra os manifestantes pacíficos, muito mais do que contra os que cometem ações de vandalismo. Do mesmo modo, os bombeiros se negam a apagar incêndios ateados por vândalos, e a imprensa difunde mais cenas do vandalismo do que do pacifismo (embora felizmente esteja frisando que as manifestações são pacíficas e que os vândalos são uma minoria). Haveria algum interesse dos governos em amedrontar a população a continuar a ir às manifestações por medo da violência tanto dos vândalos quanto da polícia? É importante observar também que até o momento não houve notícia em nenhuma cidade do pais de manifestantes feridos por vândalos, apenas pela truculência e despreparo policial. Também se viu, segundo imagens amadoras no You Tube, policiais que trocavam de roupa para, escondidos em trajes civis, disfarçados de ‘estudantes terroristas’, promover o tal quebra-quebra na chepa das manifestações.

Felizmente também se viu, na mesma mídia alternativa, policiais que aceitavam flores entregues pelos manifestantes pacifistas, e policiais que se negavam a atirar ou combater um protesto com o qual eles concordavam, e que gostariam de estar do outro lado, não disfarçados, mas sinceramente, para comungar deste movimento até agora tão espontâneo e por isso envolvente.

Também foi muito bom ver advogados se mobilizando voluntariamente para atuar nas manifestações a fim de impedir prisões políticas de manifestantes. E estudantes de medicina indo às manifestações de jaleco para prestar os primeiros socorros aos eventuais feridos pela polícia.

 

Vandalismo

É evidente que toda a grande maioria pacífica das manifestações Brasil afora se incomoda com as manifestações violentas de vandalismo e depredação da cidade e do patrimônio público. Um dos aspectos mais preocupantes do vandalismo é a maioria pacífica se abater.

Os governantes se apressam a dizer que os atos de violência retiram a legitimidade das manifestações, que perdem a credibilidade moral diante da população. Não vejo exatamente assim. Não vejo dessa forma, que pode tomar um viés moralizante inapropriado. Imoral é antes de tudo a locupletação e mau uso de verbas públicas para fins privados ou empresariais – o que redunda no mesmo, uma vez que o lucro das empresas significa e é movido pelo enriquecimento de seus donos. Não chega a ser um argumento tão indignante quanto o da falta de verbas, mas é também indignante. O patrimônio público deve ser antes de mais nada o patrimônio humano, que vem sendo negligenciado e desdenhado por serviços públicos de má qualidade. Para que haja um respeito maior ao patrimônio público, é preciso também que o público signifique público, e não privado. O governo do Estado e a Prefeitura não quiseram derrubar o prédio dos índios ao lado do Maracanã, mesmo sendo ele tombado pelo Patrimônio Público, para construir um estacionamento?

A violência é ruim em si, e não moralmente. Se ela é um efeito colateral de algum modo inevitável das manifestações de indignação da multidão de indivíduos – no momento em que parte desta funciona como massa, manipulada por ideologias ou não –, cumpre, assim como no caso da violência individual, além de coibi-la, tentar entender suas causas. E estas, não são diferentes – por mais que difiram os meios – das causas das manifestações pacíficas: a indignação com o desrespeito com as verbas públicas, a prova fornecida pelas obras da Copa de que quando se quer surgem as verbas, e a evidência de que a corrupção do estado fomentada pelos interesses pessoais dos governantes e pelos interesses de lucro das empresas (que significam interesses pessoais de seus investidores) apenas agravam a precariedade dos investimentos no setor público que não dá lucro, precisamente aquele que serve à população.

Corrupção –> menos verba pública.

Lucro das empresas muito acima do que é reinvestido –> custo de vida mais caro e também menos verba pública, uma vez que grande parte dos investimentos privados são financiados pelo BNDES.

A violência é inaceitável, sim, não somente por parte da massa oportunista – pequena parte da multidão guiada por ideologias ou por vandalismo somente – ou radicalmente revoltada, mas também por parte dos policiais, que não estão preparados para acompanhar manifestações. Isso é moralmente grave por parte dos governos, pois essa instância de serviço para a população não deveria dar o mau exemplo de atirar contra manifestantes de braços levantados nem à queima-roupa. A legitimidade de seu papel fica moralmente questionada diante da população. Se os governantes sabem que a violência é inaceitável, devem dar o exemplo, para poderem ter credibilidade para cobrar isso da população.

No meu entender, não há como o governo não coibir a violência, mas não me parece que os governantes, tampouco a mídia ou os empresários, têm moral para defender essa necessidade com um discurso moralizante. Ao invés de dizer que o que vier com violência não será ouvido, seria mais apropriado algo como: “entendemos a motivação das manifestações, e inclusive entendemos que estas motivações levem alguns a radicalismos de violência e vandalismo – seja por indignação autêntica, seja por puro vandalismo, seja por oportunismo, não importa. Pois ao que me parece há quatro tipos de vândalos nessas manifestações: os que quebram tudo por oportunismo, calculando que terão algum tipo de benefício político com isso (talvez pessoas de partidos políticos de direita ou de esquerda?); os que se aproveitam das manifestações para saquear, roubar e destruir (talvez com participação do crime organizado?); mas sei que há também um terceiro e um quarto tipos, certamente uma minoria, que quebra (sem saquear) porque se exalta, porque estão mesmo revoltados e terminam por se expressar, no calor da revolta, pela violência, e os que acabam por agir violentamente em reação de revolta à injusta violência policial que sofrem no momento da manifestação pacífica.

Porém, mesmo com esse entendimento, a violência precisa ser coibida; não só a mensagem das manifestações como também a mensagem da violência será ouvida, mas esta não pode ser tolerada. Mas é fundamental frisar que não pode ser tolerada a começar pela violência policial, institucional, contra os manifestantes pacíficos.

Falar de modo objetivo contra a não aceitação da violência me parece mais honesto que tentar desmoralizar as ações violentas, pois quem está desmoralizado neste momento são os governantes, os políticos, os empresários, a mídia que se faz porta-voz destes interesses gananciosos, e a violência policial.

Os próprios manifestantes estão tomando medidas criativas para se diferenciar dos bandidos de plantão que aproveitam as manifestações para saquear e roubar: estão se sentando assim que atos de vandalismo se iniciam, para não haver dúvida para policiais minimamente equilibrados em distinguir entre manifestantes revoltados e vândalos que se aproveitam do movimento para cometer atos de banditismo.

 

Insatisfação com o jurídico: prender aos 16 anos? Por um projeto de coletividade  

Importa pouco que se abaixe ou não a idade penal. O mais importante nessa questão é: até quando se continuará a fingir que a criminalidade tem uma origem única, simples, não complexa; que se deve somente a má-índole, e que não é fortemente influenciada pela desigualdade social, favorecida pela falta de organização social, como também pelo descaso com o ambiente social, e agravada pela impunidade generalizada?

Há criminosos em todas as camadas da população. Porém, a inexistência ou precariedade de creches, de condições de moradia, de segurança das classes sociais menos favorecidas, certamente favorecem o sentimento de não identificação e de não concernimento com o outro – que se dá embora de forma diferente também nas classes mais favorecidas social e financeiramente, tendendo a agravar a competitividade e a submissão a valores apresentados socialmente como desejáveis. Abaixar a idade penal é apenas um paliativo, de um problema que necessita para ser de fato diminuído, de investimentos reais e vultosos na pré-escola, na urbanização das comunidades, na melhor distribuição de renda e menor desigualdade social, assim como em uma folga na pressão por bens, não apenas de consumo mas de consumismo, como se fossem simbolicamente fundamentais e imprescindíveis para a felicidade do ser humano. O contrário da criminalização da pobreza. Quanto mais a cidade apostar que enriquecer significa ser bem sucedido pessoalmente, e mais, quanto mais for difícil viver em paz com pouco dinheiro, mais a pressão social se fará no sentido da insatisfação por conta de bens materiais ao invés de se aspirar por melhores condições de vida em um sentido amplo do termo. Parece ser cada vez mais difícil cantar com Tim Maia: “o que eu quero, é sossego”, ou com Ed Motta: “eu percebi que a vida é muito mais que vencer”; com Caetano: “não me amarra dinheiro não”; ou mesmo com Jorge Bem: “se malandro descobrisse o quanto é bom ser honesto, seria honesto só de malandragem”. Voltaremos a este ponto abaixo, ao comentar a realidade do novo Maracanã.

Do mesmo modo, as UPPs de fato precisam não estacionar no estágio do combate ao tráfico e ao crime organizado, pois a elas é preciso que se sigam investimentos reais em urbanização, saúde, creches, melhoria radical das escolas públicas (como um dia já foi o caso no Brasil, antes da ditadura militar). É evidente que isso seria para o benefício de toda a população. É incrível como esta evidência parece encontrar barreiras junto às classes mais abastadas, que no entanto são, além da própria classe mais carente, um alvo principal dos ataques de bandidos. Uma sociedade mais igualitária provavelmente não faria com que tantos bandidos assim deixassem de sê-lo – mas com toda a certeza levaria a que menos cidadãos das classes menos favorecidas, uma vez nascendo e crescendo em melhores condições sociais, viessem a ser tornar bandidos.

 

Pessimismo brasileiro: a Copa trará benefícios?  

Os jornais anunciam: não só os gastos com os estádios têm dado prejuízo, mas também os shows, os ingressos “VIP” e as estruturas metálicas têm dado prejuízos de mais de 20 milhões de reais em cada cidade. Prejuízos que são assumidos pelos governos dos Estados e federal, isto é, por nós: mau uso do dinheiro público, que financia festa da FIFA e privilégios de pessoas supostamente muito importantes (Very Important People). O Ministério Público, enquanto os políticos não lhe impedem de trabalhar, estão exigindo a devolução de parte deste dinheiro. Isso se não supormos que há desvio de verba e superfaturamento que na verdade justificariam shows e estruturas suplementares à estrutura dos próprios estádios (não, não os chamarei de arenas).

Este é apenas mais um exemplo de uso indevido do dinheiro público. Alguém pode imaginar um gasto suplementar de 20 milhões em cada estado da Federação com Educação? O argumento é que não dá retorno financeiro. Mas mesmo este argumento é hipócrita, pois os estádios não darão retorno financeiro para o Estado. Ah, sim, darão pequeno retorno financeiro para donos de hotéis e restaurantes, e imenso retorno financeiro para empresas privadas que investiram com o dinheiro do governo, e, claro, ainda mais para a FIFA.

O legado das Copas já virou um ‘legadinho’. O legado maior será sem dúvida o enriquecimento de construtoras, patrocinadores e gestores do dinheiro público. O legado para as cidades será pequeno, e ainda assim se as obras estiverem feitas com bons materiais, o que não vem acontecendo. Senão, a exemplo dos Jogos Panamericanos, o legado será nenhum.

Então não deveríamos ter aceitado realizar as Copas e as Olimpíadas? Sim, deveríamos. O que não deveríamos era ter aceitado até agora a corrupção, o superfaturamento, o aumento do custo de vida, o não investimento real em melhoria dos serviços públicos. O protesto não é contra a Copa, mas contra os gastos da Copa em detrimento dos gastos em educação, saúde, transportes decentes. Não é contra a seleção, mas contra a corrupção. Como diz o cartaz exibido em um dos jogos: “Me chama de Maracanã e me reforma inteira! Ass: Educação”.

 

A favor do Brasil

A seleção e seus craques, festejados por multidões, está apoiando as manifestações. O que mostra integridade individual e mínima responsabilidade social. Os altos salários dos jogadores pode até ser questionado ou incomodar alguns, mas todos sabem que estes ganhos vêm de ingressos e de patrocinadores, ou seja, do lado minimamente limpo do capitalismo, por mais injusto que este possa ser; mas não vem de uso indevido do dinheiro público como o praticado pelos políticos, gestores e parte dos grandes empresários.

Nessa Copa das Confederações, estamos vendo algo inédito em nossa história: o futebol não é mais o circo que faz aceitar ou esquecer governos corruptos, mas ao contrário, os movimentos estão motivando os jogadores a jogar com mais raça, e as vitórias até agora incontestáveis da seleção canarinho estão motivando ainda mais o mesmo sentimento das manifestações: o desejo de que o país melhore, e a convicção de que isto é possível.

Enquanto na ditadura militar os governantes golpistas tomavam os manifestantes como aqueles que eram contra o país, esta década de governo de esquerda ao menos nos garantiu o fato de que agora até jogadores da seleção de futebol podem se expressar, e que o governo não tem mais condições – como era antes, e como ainda é em países como a Turquia – de fingir que tais manifestações são tentativas de desestabilizar o governo, por parte de inimigos. No Brasil, não é, e não há como dizer-se que é. São manifestações contra todos os partidos, contra todos os políticos, contra toda corrupção e mau ou insuficiente uso do dinheiro público.

 

‘Rouba mas faz’ x ‘Tolerância zero’ com o desvio de verbas públicas

A velha condescendência com os políticos que ‘roubam mas fazem’ acabou, pois com tantos anos de capitalismo aprendemos todos que se quem rouba o erário público faz algo em prol da cidade ou dos cidadãos, faria muito mais se não roubasse. Decerto, a ideia é que tais políticos só fazem algo porque roubam para si uma parte – como uma chantagem: se você que me elegeu quer que eu faça algo, só faço se desviar uma parte da verba para meus bolsos privados. Pensamento que se fazia acompanhar de seu complemento: ‘como todos roubam, e poucos sequer fazem algo, é menos pior um que rouba como todos, mas faz alguma migalha de seu dever de governante, do que a maioria que só rouba, que sequer faz pouco’.

Este tipo de raciocínio não se sustenta mais, não há mais lugar para essa atitude, pois não há mais lugar para o roubo. O que estas manifestações exigem é uma tolerância zero com a corrupção, com o desvio de verbas públicas, com o privilégio de isenção de impostos sobre grandes empresas ou empresários ou o financiamento de iniciativas privadas sem retorno. Porque sabemos que esse dinheiro não mais escoando pelos ralos dos privilégios, haverá verbas para investimentos públicos, melhoria dos serviços, melhoria real das cidades, e não mais apenas migalhas.

 

Otimismo brasileiro: o gigante acordou? 

Em geral o otimismo à maneira brasileira sempre se caracterizou como um ufanismo – quase uma bravata: ‘agora vai!’, algo próximo de uma euforia de que com um toque de mágica, enfim a promessa do país do futuro se tornará do presente, de preferência da noite para o dia.

O pessimismo à brasileira, por sua vez, se caracteriza em geral como uma inércia, uma paralisia de quem acredita que nada melhorará, faça-se o que se fizer, aconteça o que acontecer, pois falta aos brasileiros caráter (Macunaímas que seríamos, ‘heróis sem caráter’) e seriedade (‘O Brasil não é um país sério’, teria dito o general e presidente francês De Gaulle). No momento presente o pessimismo se expressaria, grosso modo, como: ‘É claro que a Copa não trará benefícios para o Brasil’, em um clima de paralisia e conformismo. E o otimismo se expressaria como: ‘É claro que a Copa deixará um legado para o Brasil’.

As manifestações estão saindo desta dicotomia – de um pessimismo e um otimismo que na verdade se complementam, como dois lados de uma mesma moeda. A coragem de enxergar os pontos cruciais dos problemas do Brasil, indo às ruas, é uma ação, não uma paralisia. Não é mais um pessimismo. Tampouco traz o lado ruim de um otimismo, mas apenas seu lado bom: se nada acontecer de mais substancial, ao menos o recado está dado, de que a insurgência espontânea pode ressurgir.

Embora a expressão ‘O gigante acordou’, utilizada por parte dos manifestantes em referência a nosso hino, lembre para muitos o otimismo ufanista e eufórico, isto é, uma crença ingênua de que agora sim o Brasil será a potência que sempre mereceu ser, da noite para o dia, não é preciso ver assim. O gigante acordou, pode apenas significar que os jovens, e com eles o povo de um modo geral, acordou de um longo sono motivado pelo medo. A democracia instaurada crescentemente desde as eleições diretas, e reforçada na última década de governo de esquerda, permitiu aos jovens entender que essa é uma luta contra os governantes, políticos e empresários que vampirizam o país, que são contra o país, ou ‘a favor’ somente à medida que se lhes permite desviar ou beneficiar-se ilícita ou ilegitimamente do dinheiro de todos. É neste sentido, contra os inimigos internos, que ‘verás que um filho teu não foge à luta’, como também relembram muitos dos cartazes. Não interessa pensar se falta muito ou pouco para o país ‘mudar’; interessa que mude no presente. E assim, o presente se refletirá sempre positivamente no futuro.

Pão, circo e exigência de governantes honestos e competentes.

 

Deixe um comentário