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Algumas reflexões sobre as causas das manifestações (parte 2)

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“Falta dinheiro”: a pior das desculpas, o cúmulo da hipocrisia

Os prefeitos de São Paulo e do Rio, Haddad e Paes, assim como o governador do Rio, Sérgio Cabral, deram a pior das desculpas que poderiam ter dado, para justificar que não podem deixar de aumentar as tarifas dos ônibus: falta de verba. “As prefeituras deixariam de ganhar milhões.” Ora, as prefeituras deixariam de ganhar ainda mais milhões se o aumento fosse não de vinte centavos mas de um real, e ainda mais se fosse de dois reais. Argumento falacioso que não se sustenta.

Como se sabe, os governos deixam de ganhar muitos mais milhões com a corrupção, e no entanto não a combatem, ao contrário, praticam o superfaturamento, a construção com materiais de segunda a preço de materiais de primeira, e o desvio de verbas.

Além disso, têm iniciativas que somente favorecem pequenos grupos de elite. Por exemplo, a redução do IPI para automóveis representou um enorme ganho para as montadoras e revendedoras, que aumentaram seus lucros e venderam mais carros repassando apenas parte da redução para a população. Mas representou uma renúncia fiscal enorme para os cofres do governo. A justificativa desonesta dada foi a de que assim as montadoras demitiriam menos empregados que ganham salário mínimo. Algo como uma greve ou uma chantagem junto ao governo: ou aumentam ainda mais nosso lucro, ou demitiremos os empregados, mesmo esses já ganhando salários baixos. Mas foi feita a “renúncia” fiscal. Também se sabe que os governos praticam esse despojamento fiscal junto a benefícios que propiciam lucros exorbitantes a mais empresas e empresários já bastante abastados.

Os jovens estão vendo isso. Essa farsa da renúncia fiscal a quem não precisa dela. Bate mal diante disso a explicação de que o governo deixará de faturar milhões sem o aumento das tarifas dos ônibus.

E quanto o governo gastou e ainda gastará em obras das Copas do Mundo e das Confederações, que já estão superfaturadas, e – a exemplo das obras dos Jogos Panamericanos (Engenhão, Vila Olímpica, Velódromo, etc) – muito provavelmente não foram feitas com os materiais e acabamentos que deveriam, e muito provavelmente não terão manutenção?

Além disso, os serviços prestados são péssimos. Faz-se a propaganda dos BRTs no Rio de Janeiro. Mas todos viram que três meses depois da inauguração, foi necessário refazer o asfalto, pois este já cedera. Mais um exemplo despudorado de uso de material de segunda categoria, a preço de material de primeira.

Escândalos da empresa Delta envolvendo o governador Sérgio Cabral e o governo federal; a suposta limpeza da baía de Guanabara que nunca foi feita; o Engenhão caindo o teto após apenas cinco anos de inaugurado; o atraso nas obras para que em cima da hora se justifiquem abusos ambientais, desrespeitos a editais e superfaturamentos. Parecia que não – mas que surpresa, isso está sendo visto pelos jovens!

O argumento da falta de verba recobre exatamente a hipocrisia que gerou tamanha revolta: falta dinheiro para o que importa, mas não para o que gera o enriquecimento de poucos. Ou melhor, falta dinheiro para o que importa porque não falta para o que gera o enriquecimento de poucos.

Jornalistas em geral razoavelmente sensatos como Carlos Alberto Sadenberg têm dito na Rádio CBN que alguém tem de pagar as custas do não aumento das passagens de ônibus. Ora, esse dinheiro deve sair do que se economizará com a tolerância zero com a corrupção, com o superfaturamento, com o mau uso de verbas públicas. Em São Paulo, o governador prometeu vender o helicóptero oficial: além do valor obtido pontualmente com a venda, o governo economizará anualmente 4 milhões de reais de manutenção do brinquedinho (segundo informação veiculada pela própria CBN)! Não me lembro, sinceramente, de ler na Veja alguma manchete dizendo que comprar um helicóptero não seria sensato para os cofres públicos, que caso o governo estadual de São Paulo comprasse um essa verba teria que sair de algum lugar, que alguém teria de pagar a conta, que não comprá-lo tratar-se-ia de uma questão objetiva, de contas que precisam fechar, explicadas unicamente pela economia, e ensinada aos jovens universitários que não entendem nada da terra dos gigantes, da realidade econômica, do mundo dos negócios e da bolsa de valores.

 

Causas: corrupção, superfaturamento, desvio de verbas, mau uso do dinheiro público  

Quais seriam as misteriosas causas para tantas manifestações com tão numerosos adeptos, se não é mais possível afirmar com a Veja (este panfleto ideológico nada jornalístico, que inventou os editoriais ocultos em formato de reportagens, ocupando toda a publicação) que trata-se de centenas de milhares de terroristas, de jovens rebeldes sem causa, de ex-miseráveis que agora querem consumir ainda mais, ou de manipuladores pregadores de ideologias autoritárias comunistas e socialistas da esquerda anti-democrática?

A mim parece claro que a insurreição brasileira se dá contra o Sumo Bem da sociedade de consumo e da alta da bolsa de valores como valor em si, em detrimento do que quer que seja, que se apresentam como “naturais” e “necessários”, porém ao preço de corrupção, superfaturamento, desvio de verbas. Trata-se de um basta não-ideológico a uma ideologia reinante, oriunda de uma junção de interesses de elites que não satisfeitas em lucrarem com o capitalismo insustentável e selvagem, elegem ou pressionam os governos que lhes favorecem, contra a própria lei, lucros ainda maiores. Com um maquiavelismo (no sentido usual do termo) sem par: que se dê o mínimo a quem nada tem, dando-se em contrapartida o máximo a quem tudo tem. No caso, esse mínimo é um mínimo poder de consumo a quem não o tinha, e um mínimo de melhorias urbanas a quem continua tendo muito poucas.

Como já analisamos, esses anos de esbórnia – que não se iniciaram com o governo Lula, mas apenas encontraram neste, de forma decepcionante, a mesma ideologia consumista e que enaltece o fetiche do consumo que já existia antes pelos governos assumidamente conservadores – não só foram percebidos por todos, e enojaram os jovens. E enquanto os que se locupletam imaginavam que os jovens estavam nas redes sociais despejando catarticamente sua raiva por não ter dinheiro para comprar o último lançamento dos tablets contra os pigs do Angry Birds, eles estavam compartilhando democraticamente sua insatisfação acumulada, até que um dia se lhes disse que as passagens de ônibus estavam baratas para o péssimo serviço oferecido. E as redes sociais se materializaram na multidão nas ruas, em todas as capitais e outras cidades do Brasil e do mundo inteiro. Os jovens não têm cara de nerd nem de palhaço, para a surpresa e espanto dos que os tomavam assim.

 

Pluralidade de reivindicações: perder o foco?  

Não acredito que a pluralidade das reivindicações enfraqueça o “movimento”. Ao contrário. Os governos se apressaram a baixar o preço dos ônibus em vários estados. Mas justamente por conta da pluralidade de reivindicações, ficou claro que este foi o estopim, a gota que faltava, mas que não só há muitas outras reivindicações, como a questão do preço das passagens representa uma reivindicação muito maior e mais ampla. A da falta de seriedade e de priorização no gasto público. Como assim aumentar as passagens, e alegar falta de verbas, quando há verbas para o que interessa “politicamente” aos governantes atuais se manterem no poder ou os anteriores para voltar ao poder? Por que o poder, o acúmulo financeiro e a corrupção valem mais que investimentos reais na melhoria das cidades?

Em suma, não há exatamente uma pluralidade de reivindicações, ou melhor, não há reivindicações pulverizadas. Há uma pluralidade de reivindicações concentradas em uma só: fim da corrupção e mudança na priorização dos gastos públicos, fim da união de governo e empresas em prol de ganhos privados, fim de migalhas nos investimentos com a sociedade – basicamente transporte, educação, saúde, mas também ecologia, o que resulta de melhor distribuição de renda e não fetichização do dinheiro como valor em si.

Com este pano de fundo, é possível, sim, listar uma pauta de reivindicações, sem a necessidade de líderes ou de partidos que ‘negociariam’ com os governos, que, em tal negociação, usariam de todos os seus argumentos falsos e hipócritas para demonstrar que tudo isso é muito bonito mas não é – supostamente – viável.

Não foi preciso líderes, ‘negociações’, nem muito menos – argh – partidos, para que as tarifas de ônibus baixassem. Bastou os governos – dos mais diversos partidos nos vários estados do país – terem medo de perder o poder. Se pudessem, teriam, como tentaram, colocar tudo por conta de terroristas, de uma minoria, de grupos organizados de extrema esquerda ou de extrema direita.

Minha sugestão é que se tenha uma lista – por mais extensa que seja – de reivindicações não mais difusas, e que cada etapa de manifestações tome um desses temas como o ‘da vez’, e que, de preferência, não arrefeçam até que governos cedam. A ‘bola da vez’ parece ser agora combater a PEC 37, que pretende impedir que o Ministério Público investigue a corrupção. Nada mais ‘bandeiroso’ do que esta PEC. Quero dizer, nada mais representativo do descaramento dos parlamentares, dos partidos e dos governantes em visar somente seu próprio enriquecimento impunemente.

O ponto seguinte pode ser, penso, evidentemente, a saída do senhor Filiciano da presidência da Comissão de Direitos Humanos, que acabou de emplacar, com a ajuda do lobby do fanatismo evangélico, o enquadramento inaceitável, retrógrado e repressor, do homossexualismo como doença a ser ‘curada’. Fica evidente que se cada um pode inventar que a diferença do outro é uma doença, não faltariam elementos para se argumentar que ações como estas são gravemente doentias. Sugerirei mais abaixo outros pontos de ‘pauta’, que gravitam em torno de uma maior seriedade e honestidade da parte dos governos e das empresas no uso do dinheiro público.

Na verdade não há uma proliferação de motivos, porque todos giram em torno de um único motivo central: a corrupção financeira e ética dos políticos, governantes e grandes empresários, que se encontra na origem dos demais problemas, estes sim múltiplos. Eis o motivo da surpresa dos que visam pautas menores: para que a base dos serviços à população e do investimento das verbas públicas para a melhoria desses serviços, continue como está, seria bem melhor haver pautas compostas apenas de itens pontuais, como o aumento das passagens de ônibus.

Arnaldo Jabor, em um de seus comentários sobre as manifestações, preconizava que, para que o movimento dê frutos, seria preciso agora eleger lideranças, se organizar em comitês, e estabelecer pautas definidas. Ora, é justamente o contrário. A força desse movimento é a expulsão dos partidos, a negação da falsa democracia representativa (quando esta já não representa o interesse dos eleitores, mas dos eleitos), a não organização em comitês e a inexistência de lideranças que falem como se representassem o todo. Não há o que ‘negociar’ quando um dos lados é mais forte e é desonesto, pois neste caso negociar significará ter a perspectiva do outro imposta ao lado vulnerável – vide, só para dar um exemplo, a greve dos professores universitários no ano passado, ou a privatização da administração dos hospitais universitários neste ano, em que a suposta ‘negociação’ significa somente a explicação de porque se deve aceitar algo que de todo modo será imposto com ou sem esta aceitação. Negociações hipócritas.

 

O que dizer? O que fazer? A falência dos partidos políticos

Palavras sábias do jornalista Merval Pereira: “A presidenta não deve fazer nenhum discurso, pois não há o que falar [eu acrescentaria: diante desse flagra indesculpável da falta de seriedade dos políticos e empresários por eles representados]; a única resposta que ela pode dar é através de ações.” Ações que mostrem que o Brasil quer reencontrar seu rumo.

Não acredito que os liberais ou o tucanato, Aécio ou outros, possam estar comemorando esses acontecimentos. Os indignados atuais sabem que à época do segundo governo FHC o país era mais manipulado ainda do que hoje; havia o cultivo da dívida externa como desculpa para um uso da verba pública ainda pior do que o atual. Os oito anos de governo Lula, embora ele próprio não tenha nenhum pudor, nos mostraram a possibilidade de um futuro melhor para o país. Dilma, no entanto, parece ter se preocupado com aparelhar as empresas estatais, afundando a Petrobrás e a Eletrobrás, com políticas populistas, e com – que estranha contradição – privatizações incompreensíveis, como a dos hospitais universitários, e conseguiu lidar com a greve dos professores universitários de forma ainda mais indiferente e desdenhosa que o governo FHC. Se ela quer se reerguer, terá que propor mudanças ousadas. Diminuição das passagens evidentemente não será o suficiente.

Meu sentimento é o de que o candidato – nem petista nem tucano (ou suas variantes como o DEM e outros) – que se apresentar sem vincular seu nome a partidos, mas a causas, à compreensão de que a corrupção e a ganância não podem mais reinar no país, de que os serviços públicos devem ter qualidade e as melhorias devem ser urgentes; se algum conseguir obter credibilidade quanto a isso, este certamente será eleito. Seria muito bom se esse pique de reivindicações não arrefecer e se mantiver até a Copa de 2014 – de preferência sendo o Brasil campeão – de modo a que a Copa não possa ser instrumentalizada em prol de políticos maquiavélicos, mas ao contrário, dê ainda mais forças à multidão para votar em um candidato que venha a ter a coragem de abraçar essas causas, mas de fato e com competência.

Os partidos estão falidos como ideia. Seus membros mais parecem aos olhos da população, estes sim, formadores de quadrilhas, que visam tão somente a conquista do poder e o enriquecimento ilegítimo, seja de forma ilícita, seja por brechas legais de uma legislação caduca.

 

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